14º Domingo do Tempo Comum

A primeira leitura de hoje fala muito de alegria, esperança e felicidade; de uma Jerusalém que é restaurada e amada. O nosso Evangelho também nos fala dos discípulos que retornam a alegria. Ao ler as leituras para este 14º domingo do tempo comum, pensei: este será um domingo fácil para pregar; pelo menos comparado à semana passada, quando tivemos que entender o que Jesus quis dizer com aquele ditado “deixai os mortos enterrar seus próprios mortos.”

Mas essa ilusão de que seria um domingo fácil para pregar não se sustentou por muito tempo. Estudando as leituras com maior cuidado, e de perto, reparei que as imagens que elas pintam embora pareçam ser bonitas, simples e alegres; contêm em suas entrelinhas um desafio enorme.

A primeira leitura de Isaías fala de um povo restaurado e amado e produz imagens maravilhosas. Como sugar o leite de conforto, bebendo e saciando dos seios da Mãe Jerusalém, amamentando com prazer; ter prosperidade que flui como um rio com uma torrente transbordante; e de sermos abraçados, acariciados e levados ao colo.

Já Gálatas fala sobre a glória na cruz. Em outros lugares, São Paulo se refere à graça do sofrimento, com Jesus pregado na cruz. Como casar com essas imagens? A glória de Jerusalém confortada como uma mãe conforta um filho, com a cruz dolorosa e sofrida do Senhor?

No Evangelho de hoje, ouvimos sobre a missão dos discípulos e as condições que Jesus estabeleceu quando lhes entregou esta missão.

Primeiro, eles devem viajar de forma extremamente leve, sem mochila, bolsa ou um par extra de sandálias; segundo eles devem viajar em pares; em terceiro lugar, parece que eles devem viajar rápido para chegar ao seu destino. Parece também que eles devem viajar com uma certa dose de ‘medo’, observando suas costas e sofrendo ameaças — como cordeiros colocados no meio lobos, ouvimos.

Cada uma destas leituras, seja no antigo testamento, na carta de São Paulo aos Gálatas ou no Evangelho de Lucas, fornece imagens ricas. Poderíamos passar um tempo infinito olhando para cada uma e entendendo seu significado particular em nossas vidas.

Hoje, também estamos celebrando em nossa paroquia o Dia Mundial dos Refugiados, que se comemorou mundialmente no dia 20 de junho, apenas uma semana atrás.

“É um dia especial em que o mundo leva tempo para reconhecer a resiliência das pessoas deslocadas à força em todo o mundo.

Este ano celebramos o dia com o tema: “#comrefugiados”.

O Dia Mundial do Refugiado é celebrado anualmente para homenagear a coragem, força e determinação de mulheres, homens e crianças que são forçadas a fugir de suas casas sob ameaças de perseguição, conflito e violência.

Neste dia, a comunidade internacional procura chamar a atenção para a situação dos refugiados e celebrar sua coragem e resiliência.

Em todo o mundo, mais de 50 milhões de pessoas fugiram de suas casas. Cada dia milhares mais seguem…” e o texto continua.

Perguntamo-nos: mas, de onde vem este texto?

Juro que como eu vão se surpreender ao saberem de onde ele vem. Para minha própria surpresa e, confesso, subsequente raiva, este foi o comunicado de imprensa oficial emitido pelo governo da África do Sul para marcar este dia.

Segundo o ACNUR, a agência da ONU para refugiados

Uma quantidade sem precedente, de 70,8 milhões de pessoas em todo o mundo, foram forçados a fugir de casa. Entre eles estão quase 25,9 milhões de refugiados, mais da metade dos quais têm menos de 18 anos. Temos também milhões de pessoas apátridas a quem é negada a nacionalidade e acesso a direitos básicos como educação, saúde, emprego e liberdade de movimento.

Com estatísticas como estas pergunto, onde está a alegria e a esperança em nosso mundo que a leitura de Isaías apresenta?

Há alguns dias recebi no meu telemóvel uma vídeo-mensagem produzida por Sheila Pires da Radio Veritas juntamente com o P. Pablo desta paróquia, que é o vigário responsável ao nível arquidiocesano pelos migrantes. No vídeo eles visitam um local há poucos passos daqui, em Turffontein.

O vídeo contém cenas chocantes de maus-tratos a refugiados, mas não apenas. Refugiados depositados de forma forçada num lugar sem saneamento, eletricidade ou higiene básica, tendas dilapidadas que abrigam mais pessoas do que poderíamos imaginar. Crianças sem acesso a parques ou comida ou qualquer forma de educação.

Podemo-nos chocar ao ouvir isto, dada a mensagem oficial que você acabou de me ouvir ler emitida pelo nosso governo.

O vídeo conta as histórias de alguns refugiados que foram retirados à força, supostamente de edifícios ditos à ponto de colapso, no centro da nossa cidade e considerados inseguros para habitar.

Mesmo assim, os oficiais acreditam que esta nova acomodação em pequenas tendas orgulhosamente marcada com o logotipo do governo da África do Sul é a solução digna para seus problemas.

Esses irmãos estrangeiros acordaram com a polícia em suas casas, pegando seus pertences e queimando-os diante de seus próprios olhos, incluindo documentos importantes que provam que estão legalmente presentes como estrangeiros em nosso país.

Enquanto eu lia o Evangelho, a minha mente continuamente retornava para este vídeo. A fala de cordeiros entre lobos, de não ter nenhum par extra de sandálias, parece ser apta.

Isso me fez pensar.

Essa realidade para os discípulos era uma para a qual eles foram ordenados, uma escolha que eles tinham para viver de uma forma que proclamasse o Evangelho.

Esses refugiados agora depositados desumanamente à poucos quarteirões daqui não tinham escolha, mesmo assim deveriam ser para nós o anúncio da Boa Nova.

Esta é a realidade deles: muitos deixaram suas casas apenas com a camisa que tinham nas costas e as roupas íntimas que usavam naquele dia. O triste é que há pouco que eles podem ou poderiam fazer, mas não perdem a esperança. Eles optam por continuar; sabendo que as condições, embora deploráveis, são ainda muito melhores que as de seus países de origem, de onde muitos tiveram de fugir à pressa sob ameaça de vida ou em busca de condições melhores para o futuro dos seus filhos.

O que podemos aprender desta experiência das nossas irmãs e irmãos?

Muitos de nós, certamente, diríamos: cada um para si e os seus; sua situação não é problema meu. Podemos negar que assim seja, mas pensem bem nisso: quantas vezes não ouvimos essa desculpa, possivelmente até em nossas próprias casas. Uma retórica violenta e agressiva contra aos estrangeiros, ao negro, ao pobre, ao homossexual, às mulheres, e como há poucos dias vimos em Pretoria contra aos sem teto e abrigo — ao outro que não é como eu.

Mas o Evangelho de hoje confessa que o outro é problema nosso — e não apenas nosso problema — mas nossa obrigação.

A forma Lucana da caridade não fala de o cuidado do outro como caridade, mas como obrigação. Para São Lucas da mesma forma que Deus sente-se obrigado a dar-nos a salvação, dessa mesma forma somos obrigados a cuidar pelo outro — por necessidade cristã.

É o nosso chamado bíblico estar com nosso irmão em necessidade. As leituras de hoje trazem isto firmemente. Dizendo-nos neste tempo onde o nosso mundo está clamando por ajuda, revelando o sofrimento terrível de seu povo — para ver no sofrimento do outro o nosso sofrimento também. O sofrimento que o nosso Jesus sofreu na cruz para nos trazer todos a glória da salvação.

Vamos então, nós que vivemos no privilégio e conforto de ter abrigo, comida, educação e recriação — e que já fazemos parte da nova Jerusalém — fazer aos nossos irmãos como diz a nossa primeira leitura. Agora é tempo de trazer-lhes conforto, de carregar-lhes ao colo, acariciar lhes, aceitar-lhes e amamentar-lhes; para que eles também possam, após e até mesmo no sofrimento, experimentar a alegria do rio que flui transbordante com prosperidade. Porque é este o nosso dever à nossa irmã e ao nosso irmão.